FINANCIAMENTO PARA PEQUENOS E MÉDIOS PRODUTORES FLORESTAIS:
SITUAÇÃO ATUAL E PERSPECTIVAS
Relatório do Workshop realizado na SBS em 20 de março
de 2003
·
Com a participação de representantes do MAPA, MDIC, MMA, MDA,
BRDE, BNDES, Associações do setor de base florestal, Empresas,
Agentes financeiros privados e Produtores de madeira, foram analisadas e discutidas
as linhas de crédito PROPFLORA e PRONAF FLORESTAL instituídas
no ano passado.
· O diagnóstico confirmou que a implementação
desses programas, como instrumentos complementares para expansão da
base florestal, não tem ocorrido na escala necessária para atender à demanda
e suprir a escassez de madeira prevista pelo Programa Nacional de Florestas – PNF
e pelo Fórum de Competitividade da Cadeia Produtiva de Madeira e Móveis.
· Existem dificuldades operacionais, tanto para os tomadores de recursos,
como para os agentes financeiros.
· Há pouca divulgação e pouco conhecimento sobre
as linhas de crédito, bem como há vários requisitos que
devem ser equacionados para colocar em prática os financiamentos.
· Do lado dos produtores florestais há grande demanda pelos
financiamentos; entretanto, do lado dos agentes financeiros – à exceção
de alguns poucos casos – não tem havido a oferta correspondente.
· Quanto ao PROPFLORA – até a data do workshop – haviam
sido aprovadas apenas 10 operações no valor de R$ 920 mil, das
quais 7 para pessoas físicas, 1 para pequena empresa e 2 para média
empresa.
· Quanto ao PRONAF FLORESTAL – também até a data
do workshop – nenhum projeto havia sido aprovado.
· Houve consenso de que, face a importância estratégica
do setor florestal, os mecanismos de financiamento devam ser mantidos e os
recursos a serem alocados pelo governo nos planos agrícolas 2003 / 2004
e subseqüentes devam ser assegurados.
· Entretanto, há de se proceder a ajustes e aperfeiçoamento
nos programas, de modo a tornar as linhas de crédito accessíveis
e efetivas para o desenvolvimento da silvicultura e conseqüente atendimento
da demanda industrial por matéria-prima oriunda dos florestamentos.
As Principais Limitações Identificadas foram:
· Desinformação e Pouca Divulgação dos
Programas: Tanto por parte dos agentes financeiros, como por parte dos produtores.
Há inúmeros casos em que as agências credenciadas, ao serem
contatadas por produtores rurais, alegaram desconhecer o PROPFLORA ou, então,
desconhecer as condições de operação do programa.
A SBS recebeu várias manifestações de produtores e de
associados solicitando esclarecimentos sobre os programas.
· Pouca Capilaridade e Falta de Interesse dos Agentes Financeiros:
Nem todos os agentes financeiros dispõem de instalações
em municípios chaves. Apesar de o Banco do Brasil ser o agente financeiro
de maior capilaridade (presença pulverizada em todo o território
nacional), não tem demonstrado interesse em operar o PROPFLORA. Diversos
agentes financeiros não incluíram o PROPFLORA como linha de crédito
prioritária.
· Normatização dos Programas: O Banco do Brasil, que
possui mais capilaridade do que os demais agentes financeiros, não havia
normatizado a operação do PROPFLORA. De outro lado, o PRONAF
FLORESTAL só foi normatizado em novembro / 2002; o fato deste ser um
programa operado somente por bancos oficiais também é uma limitação à implementação
do PRONAF FLORESTAL.
· Prazo de Reembolso e Carência: A produção de
madeira requer longo prazo de maturação. O período de
12 anos para reembolso, incluindo a carência de 8 anos, não atende às
expectativas nem do agente financeiro, nem do tomador de recursos. Do lado
do agente financeiro privado, o prazo é considerado muito longo vis-à-vis
outras oportunidades de empréstimos e o histórico de constantes
renegociações de dívidas do setor rural. Do lado do produtor,
o prazo é insuficiente para gerar receitas que cubram todas as despesas
de investimento e custeio, pois a produção não se exaure
no 12º ano (plantações florestais são manejadas para
2 ou 3 cortes em 14 ou 21 anos, ou então são desbastadas para
corte final aos 20 / 25 anos).
· Garantia Real Exigida: Embora o PROPFLORA preveja que a garantia
seja negociada entre as partes, o fato é que este tem sido um dos maiores
gargalos para a sua implementação. O penhor da madeira exigiria
seguro da produção, o que oneraria ou mesmo inviabilizaria o
financiamento. A possível hipoteca da terra é impraticável,
pois em caso de eventual inadimplência do mutuário, não
há como executá-la, pois não há como “obrigar” o
corte da madeira (que, neste caso, seria considerada como “benfeitoria”).
· Taxa de Juros e Spread: O spread do agente financeiro está embutido
na taxa de 8,75% aa do PROPFLORA. Dadas as características do projeto
florestal, os agentes financeiros, de modo geral, consideram-no insuficiente.
· Burocracia: Foram apontadas as seguintes complexidades para operar
o PROPFLORA:
- Elevado custo para treinar todos os gerentes, pois estes têm
dezenas de “produtos” para conhecer e trabalhar.
- Banco de rede tem de colocar na agência aquilo que o gerente pode “vender” sozinho.
- O repasse do BNDES, salvo Moderfrota e Finame, é muito complicado e,
muitas vezes, não é possível o gerente operar.
- O gerente da agência local não aceita correr riscos e a decisão
sobre “liberar ou não liberar o financiamento” é deste
mesmo gerente.
- Os bancos preferem atuar com poucos médios e grandes proprietários
/ empresas ao invés de atuarem com muitos pequenos proprietários.
- Projetos de reflorestamento exigem do produtor florestal ou tomador do financiamento
um arcabouço burocrático excessivo.
· Desconhecimento do Setor Florestal e do Mercado.
- BNDES e Banco do Brasil não conhecem a realidade do meio rural,
a realidade dos agricultores familiares e das pequenas cidades. O contraste
entre a sofisticação dos bancos e a simplicidade do produtor
rural é fator inibidor.
- Profissionais dos agentes financeiros, de modo geral, não
estão familiarizados com parâmetros de produção,
de custos e de preços, pois as plantações florestais ficaram,
por muito tempo, sem serem contempladas nas linhas de crédito oficiais.
- Os agentes financeiros também não estão familiarizados
com o mercado da atividade florestal, que varia em função da
região e do pólo consumidor. Conseqüentemente, as condições
de financiamento deveriam ser diferenciadas.
As Principais Sugestões Emanadas do Workshop foram:
· Promover maior divulgação do PROPFLORA e do PRONAF
FLORESTAL (rádio, folderes, cartazes, etc).
· Envolver a FEBRABAN: para discutir a reformulação das
condições dos programas.
· Direcionar os financiamentos para municípios e regiões
com aptidão florestal e com mercado consumidor.
· Estabelecer parcerias entre MDA / MMA / MAPA / Secretarias Estaduais
/ Emater / Empresas.
· Flexibilizar garantias exigidas, tal como contratos de compra e venda
futura de madeira.
· Estruturar o financiamento de projetos florestais plurianuais: o
programa de plantio deve ter continuidade de, no mínimo, 7 anos consecutivos,
de modo a assegurar, no futuro, renda anual sustentável.
·
Obter o engajamento efetivo dos agentes financeiros oficiais (Banco do Brasil,
Bancos Regionais de Desenvolvimento e Bancos Estaduais).
· Financiar projetos silvipastoris ou agroflorestais: experiências
existentes demonstram ser viável e desejável, em muitas regiões,
que os produtores de madeira consorciem, especialmente nos primeiros anos,
a produção agrícola com a silvicultura, de modo a antecipar
receitas.
· Gerentes de bancos precisam conhecer melhor a atividade, o mercado
e até mesmo a propriedade rural objeto de financiamento, de modo a reverter
sua “aversão ao risco de financiar plantações florestais”.
· A relação do BNDES com agentes financeiros credenciados – principalmente
o Banco do Brasil – precisa ser aprimorada.
· Lideranças das associações / empresas integradas
e lideranças de movimentos sociais precisam se aproximar de modo a promover
projetos de reflorestamento de interesse comum.
· Modelar projetos de parceria / fomento entre produtores independentes
e empresas verticalizadas.
Considerações Finais
· Os programas PROPFLORA e PRONAF FLORESTAL são excelentes mecanismos
de desenvolvimento sustentável, pois têm enorme potencial para
aglutinar aspectos econômicos (renda), ambientais (conservação
de recursos naturais) e sociais (geração de postos de trabalho
e fixação de mão-de-obra rural).
· PROPFLORA e PRONAF FLORESTAL devem ter suas condições
de operações revistas, de modo a se tornarem efetivos e cumprirem
a função para a qual foram delineados. Sem mecanismos dessa natureza
a participação do pequeno e médio proprietário
no programa de produção de madeira não será concretizada
a contento.
· Parcerias entre indústria / agentes financeiros / governo
e produtores devem ser estimuladas para aproveitar e disponibilizar a tecnologia
existente e bem sucedida nas empresas.
· O governo deve assegurar os recursos necessários nos próximos
anos para atender a demanda existente por financiamentos ao plantio comercial
de florestas