A horticultura brasileira tem um valor de produção de 15 bilhões
de reais, superior ao valor da agricultura de grãos e oleaginosas no
Brasil. É o setor da agricultura que mais cresce em todo o mundo. O
seu consumo também cresce, no mundo todo, mais que o consumo dos outros
alimentos.
O segmento de produtos hortícolas frescos é caracterizado pela
fragmentação de produção e de origem: milhares
de produtores, áreas pequenas, diferentes regiões produtoras
com diferentes épocas de colheita. O produto hortícola fresco
não sofre nenhum processo de transformação depois da colheita.
O Entreposto Terminal de São Paulo – ETSP da Ceagesp recebe produtos
de mais de 1.400 municípios brasileiros e de 9 países.
Na cadeia de produção de hortícolas frescos não
existe um elo organizador. No caso dos produtos agrícolas industrializados,
o agricultor é o fornecedor de matéria-prima e a indústria
estabelece os padrões para essa matéria-prima, os volumes de
compra e a época do fornecimento; a indústria desenvolve novos
produtos, novas embalagens, estuda o mercado consumidor, faz propaganda dentro
e fora dos estabelecimentos comerciais, tem sistema de venda e distribuição,
SAC, SOC, assessora o comprador e assim por diante, ou seja, a indústria
coordena a cadeia, o que de nenhum modo ocorre no caso dos hortícolas
frescos, em que ninguém coordena a cadeia.
A embalagem não permite a unitização da carga, é pesada,
suja, de aparência feia e machuca o produto, acarretando perdas e contaminações.
Só no ETSP, responsável pela comercialização de
12% da produção nacional, entram diariamente cerca de 10.000
toneladas de produtos. Se considerarmos o peso médio de uma embalagem
como sendo 15 quilos, teremos a circulação de cerca de 670.000
embalagens por dia. Como a Ceagesp é responsável pelo escoamento
de 12% da produção nacional, podemos dizer que o volume de embalagens
utilizadas diariamente na horticultura de produtos frescos está em torno
de 5.600.000 caixas por dia no Brasil.
A comercialização é extremamente complicada e geradora
de grandes conflitos e insatisfações. O produtor é um
individualista: há grande dificuldade de associação para
a comercialização.
A perecibilidade do produto, a colheita trabalhosa e prolongada (que impede
ou, no mínimo, atrapalha muito o adequado acompanhamento do processo
de comercialização pelo produtor isolado) e a inexistência
ou precariedade da cadeia de frio tornam o produtor extremamente frágil
em suas relações comerciais. Só no Entreposto Terminal
de São Paulo entram diariamente 6.000 veículos, sendo 1.000 deles
responsáveis pelo transporte do produto da roça ao mercado. A
adoção da carga unitizada é muito pequena; a carga e a
descarga levam horas, danificando o produto no processo; as carrocerias dos
caminhões são inadequadas.
Se transformarmos os números do ETSP para o Brasil, teremos todos os
dias 8.333 caminhões ocupados só em levar o produto da roça
para o mercado, dentro de uma frota brasileira de 152.000 unidades. Nos países
mais desenvolvidos, a refrigeração é adotada como o principal
método de conservação das frutas e hortaliças frescas,
na armazenagem, durante o transporte e na exposição ao consumidor.
No Brasil é muito pouco adotada e, quando adotada, é mal utilizada.
A concentração do varejo e dos serviços de alimentação
em grandes redes, aliada ao atual forte processo de redução de
custos, automação e corte de pessoal criam uma pressão
enorme sobre o produtor. O comprador está passando a exigir do seu fornecedor
de frutas e hortaliças o mesmo tratamento que o seu fornecedor de bolachas
lhe dá: código de barra, EDI, ECR e assim por diante. Os produtos
hortícolas são cada vez mais importantes na atração
do consumidor, na rentabilidade do varejo, na oferta de diversidade e na garantia
de custo baixo do serviço de alimentação. As frutas e
hortaliças representam 19% do total do custo da indústria de
refeições coletivas, atualmente responsável por 8,9 milhões
de refeições por dia. São mais de 900 empresas, que consomem
cerca de 150 mil toneladas de frutas e hortaliças frescas por ano.
A característica mais importante e comum a todos os elos da cadeia de
produtos hortícolas frescos é a falta de confiança. O
produtor não confia no atacadista, que não confia no produtor.
O varejista não confia no atacadista e o consumidor não confia
no produto. A adoção de uma linguagem comum de qualidade (as
normas de classificação) é passo imprescindível
para a transparência e confiabilidade na comercialização.
A transparência na comercialização não interessa
a segmentos retrógrados, como o são boa parte dos compradores
do grande varejo e dos atacadistas: significa perda de poder. A falta de transparência
possibilita o repasse da ineficiência, dos erros de pedido, das perdas
no transporte e na gôndola, da troca de embalagem, das más condições
de armazenamento. O produtor paga por toda a ineficiência do sistema.
Os sistemas de informação comercial são pouquíssimo
utilizados.
Nos últimos 3 anos, houve uma grande mudança nas exigências
legais que atingem a cadeia de produção de frutas e hortaliças
frescas. Em janeiro de 2.000, veio a exigência de rotulagem; em maio
de 2.000, a exigência de certificado de classificação para
as frutas e hortaliças frescas destinadas ao consumo humano e, em novembro
de 2.002, uma mudança radical nas embalagens, que entrou em vigor em
maio de 2.003.
A rotulagem garantirá a rastreabilidade e a identificação
do responsável pelo produto.
A obrigatoriedade da classificação alavancará a existência
de unidades de classificação e de embalamento nas regiões
produtoras, garantindo um destino mais adequado para cada tipo de produto e
gerando lotes homogêneos mais adequados à industrialização
e, conseqüentemente o surgimento de pequenas agroindústrias nas
regiões produtoras. Trará o controle de qualidade e a arbitragem
comercial.
A obrigatoriedade de mudança das embalagens é uma grande revolução.
Hoje, a maior parte das embalagens utilizadas está fora da lei. São
caixas de madeira reutilizáveis, armazenadas em depósitos imundos,
uma situação muito perigosa para a saúde humana e propícia à transmissão
de patógenos de plantas. As exigências legais são simples:
as embalagens devem ser de medidas paletizáveis. Podem ser descartáveis
ou retornáveis. Se descartáveis, devem ser recicláveis
ou de incinerabilidade limpa. Se retornáveis, devem ser higienizadas
a cada uso. A embalagem poderá ser de papelão ondulado, cartão,
plástico ou madeira ou outro material apropriado.
Fazemos a seguir exercícios de simulação sobre o que poderá acontecer
no ETSP, a partir da adoção de embalagens adequadas. No caso
de embalagens descartáveis (papelão, madeira), teríamos
a seguinte situação: considerando-se o valor médio de
uma embalagem de papelão de 15 kg como sendo R$ 2,50, em um universo
de 670.000 embalagens teríamos uma movimentação diária
de R$ 1.675.000,00, valor apenas das embalagens. Para a embalagem plástica
retornável há que se considerar sua durabilidade, o seu tempo
de retorno, possíveis perdas, etc. Num cálculo grosseiro, podemos
considerar que uma caixa de plástico custa em torno de R$ 10,00, demora
7 dias para voltar e dura 2 anos. No universo de 670.000 embalagens por dia,
multiplicadas pelo número de dias para retornar (7 dias), teremos 4.690.000
caixas no giro, com um valor total de R$ 46.900.000,00, distribuído
em dois anos: um valor diário da ordem de R$ 365.000,00. A caixa retornável
tem um alto custo de movimentação, armazenagem e desinfecção,
que deverá ser considerado, bem como as eventuais perdas que sempre
ocorrem no processo.
Hoje, no Brasil, a embalagem de madeira é sinônimo de atraso,
de danos ao produto. São embalagens pesadas, ásperas, retornáveis,
sem higienização. Os fabricantes de embalagem de papelão
e os de embalagem plástica estão se preparando para a mudança
ao longo dos últimos anos. E os fabricantes de embalagens de madeira?
Quem os representa? Qual é a sua capacidade de modernização?
Será que teremos no Brasil embalagens de madeira laminada semelhantes às
utilizadas hoje na Europa e no Chile? O que é preciso fazer para que
a embalagem de madeira seja mais uma boa alternativa? Uma alternativa que pode
criar uma nova oportunidade de negócio para as áreas mais íngremes
das propriedades que produzem frutas e hortaliças : a de produção
de madeira.
Uma oportunidade de negócio de grandes possibilidades para quem mexe
com madeira e mais uma opção de embalagem para as frutas, hortaliças,
flores e plantas ornamentais frescos.
*Anita de Souza Dias Gutierrez, engenheira agrônoma, coordenadora do
Centro de Qualidade em Horticultura da CEAGESP, e Felipe Atoline Freire de Andrade, formando em engenharia florestal.