As plantações de eucalipto no Brasil

Por Sebastião Renato Valverde

No Brasil, periodicamente, surgem acintosas críticas quanto ao eucalipto e a eucaliptocultura vindas, em muitos casos, de pessoas e instituições que, do ponto de vista técnico, social, econômico e ambiental, não são as mais apropriadas para tal.

Reconhecemos que existem críticos sérios e instituições de peso discutindo e apontando falhas nesta questão, o que é extremamente salutar para o setor florestal continuar progredindo; o problema é que o lado pejorativo disso, muitas vezes, pode retardar o crescimento da área plantada, prejudicando, assim, os produtores rurais, as indústrias florestais e o próprio Brasil.

Desta forma, buscando refletir sobre o que tem de positivo e real nas colocações é que ousamos comentar sobre tal assunto, no sentido de contribuir para que melhor se esclareça a população, sem querer esgotá-lo, dadas as suas magnitudes e complexidades.

O eucalipto é uma espécie arbórea pertencente à família das Mirtáceas e nativa, principalmente, da Austrália. São mais de 670 espécies conhecidas, apropriadas para cada finalidade de aplicação da madeira. No Brasil, seu cultivo em escala econômica deu-se a partir de 1904, a partir do trabalho do agrônomo silvicultor Edmundo Navarro de Andrade, para atender a demanda da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Mais precisamente a partir de 1965, com a lei dos incentivos fiscais ao reflorestamento, sua área de plantio no Brasil aumentou de 500 mil para 3 milhões de hectares.

Esses incentivos, sob os aspectos sócio-econômicos, contribuíram para uma maior participação do setor no PIB, emprego, renda, impostos e balança comercial. Sob o aspecto ambiental, vale ressaltar uma diminuição na pressão sobre as florestas nativas, abrigo para a fauna, proteção das águas e dos solos, melhoria da qualidade do ar, recuperação de áreas degradadas, contribuição para a mitigação do efeito estufa, etc.

Mesmo utilizando pouco da sua potencialidade, o setor florestal ainda é capaz de contribuir com cerca de 5% do PIB, US$3 bi em impostos e US$16 bi em exportações (segundo maior em superávit comercial), empregar mais de 2 milhões de pessoas e remunerar seus trabalhadores melhor que os de atividades similares. Praticamente, as plantações florestais destinadas à produção de madeira para energia, celulose e processamento mecânico, são muito mais responsáveis pela formação dos macro-indicadores do setor florestal brasileiro do que as florestas nativas, apesar dos seus quase 500 milhões de hectares disponíveis para produção contra apenas 5 milhões de plantio, sendo 3 de eucalipto, 1,8 de pinus, e o restante, outras espécies (seringueira, teca, etc).

No que tange ao mercado florestal, este tem melhorado substancialmente devido ao aquecimento da economia internacional e brasileira. Em função do rápido crescimento das plantações de eucalipto, que atingem produtividades cerca de 10 vezes mais que as dos países líderes deste mercado, o Brasil vem ganhando posições de destaque. Para se ter idéia, o crescimento das florestas na Finlândia, país tradicionalmente florestal, alcança, em média, rendimentos de 5 m 3 /ha.ano, Portugal, 10, Estados Unidos, 15, África do Sul, 18, e Brasil, 35; podendo porém alcançar de 60 a 70 m 3 /ha.ano. Vários estudos têm comprovado estes ganhos de competitividade da indústria florestal (celulose, chapas e serrados), em detrimento dos países tradicionais decadentes, que incomodados e convulsivos, suspiram ao verem frutificar iniciativas suicidas à eucaliptocultura no Brasil.

Os projetos de reflorestamento, independente da espécie plantada, caracterizam-se pelo elevado risco, técnico e econômico, a que estão sujeitos. Na maioria das vezes, estes riscos estão associados ao longo prazo, onde tudo se torna possível de ocorrer, como incêndios, pragas, doenças, sinistros, volatilidades de mercado e preços, afetando a viabilidade e a atratividade destes projetos. Outra característica deste tipo de projeto é o preço ainda baixo da madeira, em razão da existência de uma condição de mercado onde a competição se faz de forma imperfeita, prejudicial no curto prazo aos produtores rurais e, no médio e longo prazo, às empresas e consumidores.

No entanto, começam a se observar mudanças significativas neste mercado, onde o aumento na demanda por madeira, sem a correspondente oferta, tem provocado elevações nos preços. O diferencial deste tipo de projeto comparado com o agrícola, é que o aumento nos preços não se reflete imediatamente no aumento da oferta, pelo fato de que do plantio à colheita leva-se, pelo menos, de seis a sete anos.

Isto está provocando mudanças profundas e favoráveis ao mercado, valorizando a madeira e aumentando a atratividade. Como alteração estrutural, pode-se dizer que vem ocorrendo o repasse da atividade florestal aos produtores rurais, reduzindo assim os latifúndios e a monocultura e seus impactos ao ambiente e à população rural. Geralmente, este repasse tem sido feito através de uma parceria entre empresas florestais e produtores rurais, denominada de fomento florestal.

Mesmo diante de tantos benefícios das plantações florestais para a nação, estranhamente ganham espaço as críticas que comentaremos abaixo, que enquanto construtivas são bem vindas, porém, do contrário, devem ser rechaçadas.

As principais críticas alegam que o eucalipto é uma espécie exótica, piora o déficit hídrico do solo, reduz a fertilidade e o pH do mesmo, afugenta a fauna, as plantações formam grandes latifúndios e monocultura, apresenta pouca contribuição na geração e formação da renda e emprego, provocam o êxodo rural e reduzem o valor da propriedade.

Antes de se tecer quaisquer comentários, gostaríamos de esclarecer ao amigo leitor, que os fenômenos naturais são complexos e dinâmicos, difíceis de serem diagnosticados, mensurados e prognosticados. Então, quando vemos pessoas leigas falando com propriedade de determinados efeitos da eucaliptocultura sobre o meio, nos estarrecemos, pois nem os maiores especialistas do assunto, muitas das vezes, não afirmam categoricamente a respeito.

Tal como o eucalipto, praticamente toda a nossa base alimentar é constituída de espécies exóticas, como o arroz, milho, feijão, trigo, soja, abacaxi, café, etc., além do mais, num mundo irmanamente globalizado, não faz sentido nenhum levante de xenofobia, mas sim de confraternização entre os povos e culturas.

No tocante a parte hídrica, o eucalipto é taxado como uma espécie consumidora de grande quantidade de água. A título de curiosidade, o leitor deve pesquisar e comparar o consumo de água para cada unidade produzida de carne, cana-de-açúcar, batata, milho, soja, etc, e verá quem realmente é a verdadeira bomba hidráulica vegetal. De qualquer forma, seria leviano de nossa parte afirmar que o eucalipto, e ou a eucaliptocultura reduz ou não a quantidade de água no solo, alterando a vazão dos cursos d´água, pois isto é inerente a qualquer cultura e o que está em jogo é o manejo adequado da microbacia.

O certo é que o eucalipto, por ser uma espécie de rápido crescimento, apresenta um gasto energético muito alto e daí a necessidade de se hidratar, mas podemos garantir que dificilmente uma outra espécie seria tão eficiente no uso deste recurso quanto ele. Por isso, em solos úmidos, o consumo e o crescimento florestal tendem a ser maiores, e vice-versa. Mais importante ainda é dizer que em regiões mais áridas, onde a silvicultura tem sido viável, só se consegue agricultar, se implantar um conjunto ostensivo de irrigação, consumindo quantidades enormes de água. Assim, fica a pergunta: onde o amigo leitor viu uma plantação florestal sendo irrigada, conforme se vê na agricultura?

Quanto à redução da vazão, a principal atitude a tomar é simplesmente fazer cumprir a legislação florestal que proíbe qualquer tipo de plantação comercial num raio de 50 metros das nascentes e, nas áreas consideradas de recarga, sugere-se orientar os produtores a manejarem suas plantações sob técnicas conservacionistas do solo, de forma a não expô-lo num nível que prejudique o estoque de água no solo e no lençol freático.

Em relação à redução da fertilidade e acidez do solo, gostaríamos de colocar o seguinte: das plantações florestais apenas se explora a madeira, composto orgânico formado por moléculas de carbono, oxigênio e hidrogênio, retiradas do ar pelo processo da fotossíntese, tal que se a exploração ocorrer após a rotação ecológica e se as cascas do tronco forem deixadas no campo, dificilmente ocorreria um empobrecimento do solo; pelo contrário, vai é melhorar a fertilidade devido a reciclagem dos nutrientes absorvidos das camadas mais profundas e liberados com a exsudação e com a decomposição da matéria orgânica que cai sobre o solo.

Vários estudos demonstram que, com o reflorestamento, a fauna tem retornado nas propriedades. Uma das razões é devido as empresas possuírem grandes extensões de florestas nativas e plantadas, além de programas de educação ambiental visando, entre outras coisas, a proteção dos animais, e, à medida que os reflorestamentos vão se deslocando para as áreas dos produtores rurais e estes vão se conscientizando, o resultado não vai ser diferente, ou seja haverá o reaparecimento e aumento da fauna.

No tocante ao latifúndio e monocultura, regime que independe da espécie e da atividade, esclarecemos que ambos são conseqüências naturais, dado o contexto em que os reflorestamentos se iniciaram, são prejudiciais para todos, não há nada de estratégico as indústrias serem latifundiárias; no futuro os produtores, certamente, abastecerão boa parte das demandas das indústrias. As razões disso são que a madeira de reflorestamento apresenta baixo coeficiente preço/peso específico em razão de ser um produto pesado e de baixo valor comercial. Esta condição faz com que o valor de uma carga de caminhão seja relativamente baixo, quase o seu custo de transporte. Isto forçaria a localização dos reflorestamentos próximos da indústria consumidora para que se viabilize o projeto, forçando as empresas florestais a adquirirem grandes quantidades de terras (latifúndios) e formarem extensas áreas florestadas (monoculturas).

Neste sentido, o latifúndio, a monocultura e os grandes maciços florestais localizados no entorno das empresas dificultaram a existência de outros produtores e consumidores de madeira próximos, eliminando as possibilidades de concorrência, de aumento nos preços da madeira, levando a constituição de monopólios naturais.

Porém, com as mudanças no mercado conforme descritas, a tendência é que boa parte do abastecimento fique a cargo dos produtores, que estão sendo subsidiados pelas empresas através do fomento florestal. Apesar delas estarem desempenhando muito bem estes programas, o problema é que eles são onerosos, foge do core business das empresas e as obriga se aventurar numa engenharia financeira que não lhes compete, mas sim aos agentes financeiros, que ainda não acordaram para este novo e fantástico eldorado florestal.

Com relação a eucaliptocultura gerar desemprego, temos a informar que um dos entraves da expansão do reflorestamento em várias regiões se deve à falta de mão-de-obra, principalmente para as áreas montanhosas, onde é difícil mecanizar. O que tem sido narrado por produtores é que, mesmo querendo reflorestar, falta gente para trabalhar.

Atualmente, culpar o reflorestamento pelo êxodo rural é repugnante, pois podem escrever, será ele quem vai inverter o êxodo causado pela mecanização da agricultura, pois com a expansão e o surgimento de novos projetos florestais, o Brasil será, mesmo com algumas pessoas e instituições tentando prejudicar, o maior produtor de produtos florestais do mundo, o que vai demandar uma quantidade enorme de madeira; conseqüentemente, mais áreas reflorestadas e mais emprego.

Existem muitas áreas ociosas, degradadas e mal aproveitadas no Brasil, onde se poderia investir em reflorestamentos. Para esses locais, o eucalipto é uma excelente opção econômica, ambiental e social. Sabemos que impactos negativos podem advir de qualquer ação antrópica; então o que nos cabe é analisar e decidir sobre os custos e benefícios delas, para saber se determinada atividade pode ou não ser implantada e, se sim, quando, como, onde e quem fazer, porém nunca, insanamente, proibi-la e rotulá-la sem quaisquer fundamentos.

Finalmente, meu paciente leitor, não queremos alardear que o eucalipto é a solução dos problemas, mas garantimos que ele é o elixir que faltava para a sobrepujança do agronegócio da região centro-sul brasileira. No entanto, querer impedir o crescimento da eucaliptocultura é uma traição às esperanças de uma grande parcela do povo brasileiro, principalmente, dos desiludidos que vivem no meio rural.

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