USO SUSTENTÁVEL INTEGRADO DA BIODIVERSIDADE NA CAATINGA

FRANCISCO BARRETO CAMPELLO
PROJETO CONSERVAÇÃO E USO SUSTENTÁVEL DA CAATINGA
ENG. FLORESTAL

Estamos vivendo a preocupação do aquecimento global, todos procurando fontes alternativas e clamando por fontes renováveis de energia. A Caatinga, com vegetação de rara biodiversidade, vem sustentando a economia da região Nordeste ao longo dos anos por meio de duas vertentes: (a) pelo fornecimento de energia: 33% da matriz energética da região é oriunda da lenha obtida por meio da exploração não sustentável e 70% das famílias da Região utilizam lenha para suas demandas domesticas; (2) pelo fornecimento de uma série de produtos florestais não madeireiros. O recurso florestal está presente na vida do nordestino de maneira direta ou indireta desde o homem rural do sertão que usa a floresta da Caatinga como pasto para o gado e para a produção de mel, passando pelas mulheres artesãs que obtém seu sustento com a fabricação de artesanatos e da comercialização de plantas medicinais, até as cerâmicas e as grandes indústrias de gesso, que geram divisas para o país usando a lenha como suprimento de energia.


No semi-árido a área de cobertura florestal varia de 30% a 50%, e as terras utilizadas para fins agrícolas representam de 5% a 10%. As demais terras foram transformados em pastagens naturais ou vegetação rasteira. A agricultura permanente de subsistência, não irrigada é encontrada somente em vales de aluvião e representa menos de 8% da área total.
O Sistema de Pousio, praticado pelos pequenos e médios produtores, é baseado na alternância de terras florestais para agricultura, pastagem e posterior retorno para cobertura florestal. Esse modelo é quem assegura a manutenção da fertilidade (matéria orgânica e nitrogênio) nos solos e dar sustentabilidade ao modelo agropecuário que vem sendo praticado pelos pequenos e médios produtores. A presença do homem no meio Rural e as praticas inadequadas vem fazendo com que os “ciclos” sejam cada vez menores, impedindo a natureza de repor os elementos necessários e continue contribuindo para a sustentação da economia local. Assim, é importante termos ações que assegurem o papel de “insumo ambiental” que o recurso florestal exerce nos sistemas produtivos (agricultura e pecuária).
Um estudo realizado recentemente pelo PNF/MMA em cooperação técnica com as Nações Unidas, na região Nordeste, mostra que a dinâmica da cobertura florestal na Região é resultado da relação de confronto entre pressões antrópicas e processos de regeneração natural. Este processo é pauta de preocupação pública já desde o século XVII: “O avanço das fronteiras agropecuárias somado à exploração de madeira para diversos usos, colocaram em questão a capacidade das florestas regionais para continuar fornecendo seus produtos e serviços ambientais vitais para as atividades produtivas e a qualidade de vida da população” - Riegelhaupt.


A cada momento nos deparamos com vivências que nos demonstram que a relação do homem com a biodiversidade pode e deve ser a saída para um amplo processo de conservação ambiental. As Escolas modernas do desenvolvimento sustentável – como a do Prof. Ignacio Sachs Ecosocioeconomista da Escola de Altos Estudos em Ciências Sócias em Paris que dirige o Centro de Estudos sobre o Brasil Contemporâneo – afirma “O desafio da inclusão social, da sustentabilidade e do desenvolvimento ecosocioeconômico no campo é reunir biodiversidade, biomassa e biotecnologias” e “O reflorestamento deve ser feito dentro do conceito de florestas econômicas consorciadas com outras atividades agropecuárias, com corredores ecológicos e recondicionamento das matas ciliares”.
Esses conceitos modernos frutos do amadurecimento do processo de conservação na terra vem complementar conceitos passados de estudiosos como o professor Vasconcelos Sobrinho que em seu trabalho “Processos de Desertificação Ocorrentes no Nordeste do Brasil: Sua gênese e sua contenção 1982”, já chamava atenção, afirmando: “As ações requeridas para sustar a desertificação consistem fundamentalmente no comportamento correto do Homem … mediante sábio manejo dos seus recursos naturais”; …”No entanto não será necessário esperar o resultado de demoradas experimentações”. “A silvicultura para o semi-árido nordestino terá por finalidade o combate à desertificação e ao mesmo tempo a promoção de uso mais adequado para a ecologia regional. Não hesitamos em afirmar que a vocação ecológica do semi-árido nordestino é a silvicultura. Principalmente uma silvicultura voltada para a implantação de florestas energéticas”.
Recentemente vivenciamos na 13ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudança do Clima um avanço considerável ao, como país, assegurarmos o reconhecimento e a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento que assegure a manutenção da floresta em pé. Esses três momentos demonstram que a compreensão para o uso sustentável dos recursos florestais vem sendo modelado. A cada momento somos forçados pela história a avançarmos nessa meta. Felizmente começamos a ter no manejo sustentável dos recursos florestais um instrumento de gestão ambiental, que além de promover um desenvolvimento sustentável com inclusão social assegura a manutenção dos serviços ambientais e colabora firmemente para a conservação da biodiversidade.


Estudos realizados na região com apoio das Nações Unidas permitem uma melhor visualização do potencial da Caatinga, muitos já conhecidos de forma empírica pelos sertanejos: (1) a Caatinga apresenta em sua fisiologia mecanismos interessante para sua regeneração, o que potencializa e simplifica seu manejo Florestal (utilização sustentável); (2) tem no potencial “forrageiro” seu produto florestal mais nobre, fundamental para manutenção da pecuária extensiva no semi-árido, com uma capacidade de produção forrageira na ordem de 4 ton/ha.a, salvação dos rebanhos nas épocas de estiagem; (3) a lenha é o segundo energético da região – que além de ter um custo por Kcal, menor que os derivados de petróleo, é um bio-combustível de grande inclusão social – gerando mais de 700 mil posto de trabalho e renda na época da “estiagem”, contribuindo para a fixação do homem no campo, sem concorrer com outras atividades econômicas rurais. Por outro lado, adotando-se as práticas de manejo florestal sustentável, ficamos na pauta do Tratado de Kyoto, na busca das fontes energéticas renováveis; (4) os sistemas agroflorestais na Caatinga hoje é uma realidade que permite segurança alimentar para muitas famílias; (5) a Caatinga, tem ciclos muito curtos de 10 a 20 anos, comparativamente com os ciclos dos países temperados; (6) a Caatinga dispõe de uma Rede de Manejo e de uma Rede de Sementes Florestais apoiadas pelo MMA/PNF/IBAMA, onde profissionais da região buscam cada vez mais qualificação para as práticas de utilização integradas e sustentáveis.
Outro ponto importante diz respeito aos aspectos sócios econômicos, existem experiências com a perspectiva de integração do recurso florestal na matriz produtiva dos Projetos de Assentamentos da Reforma Agrária visando a utilização múltipla e sustentável dos recursos naturais/florestais, permitindo que esse manejo integrado do recurso florestal gere rendas de até 1,5 Salários Mínimos por família, contribuindo para tornar os Projetos de Assentamento da Reforma Agrária na Zona Semi-Árida do Brasil, empreendimentos de Desenvolvimento Local Sustentável e de fortalecimento e reprodução da Agricultura Familiar, com aumento da Segurança Alimentar, Energética e Hídrica; Geração de Emprego e Renda e construção de novas e justas Relações de Gênero e Gerações.


Novas relações de usos sustentáveis estão sendo estabelecidas com a biodiversidade da Caatinga, principalmente no tocante ao potencial dos produtos florestais não madeireiros. Atualmente mais de 20 comunidades formam a Bodega da Caatinga, uma Rede de Produtos sustentáveis da Caatinga com mais de 20 mil pessoas envolvidas na produção e processamento de fibras, cascas, frutos, sementes e pequenos artefatos, embasados em uma Carta de Princípios onde são assegurados a sustentabilidade na coleta e obtenção dos produtos da biodiversidade da Caatinga e o associativismos no beneficiamento e comercialização.
Diante deste quadro, o manejo florestal sustentável é uma das poucas alternativas de promoção de desenvolvimento local que reconhece o recurso florestal como ativo ambiental e permite assegurar uma relação de equilíbrio entre a demanda e a oferta de energéticos florestais, em base sustentável, contribuindo para a conservação da biodiversidade e assegurando a manutenção do serviços ambientais. As Caatingas vêm atendendo essas necessidades da nossa sociedade. Alcançar o uso sustentável da biodiversidade é uma necessidade para a sobrevivência do homem. Ainda somos e seremos dependentes ambientais.
Assim, o Manejo Florestal Sustentável Integrado da Caatinga é uma das alternativas, que possibilita viabilizar de forma sinérgica as atividades produtivas na região Nordeste. Assegurando que a demanda pelos produtos da biodiversidade, seja na forma de energia da biomassa florestal estimada em mais de 25 milhões de metros de lenha para atender os diversos setores da agroindústria, em especial o setores do gesso e cerâmico, seja na forma de alimentos para as escolas, como é o caso do beneficiamento do Umbu em Uauá, na região possa ser viabilizada de forma sustentável sem agressão ambiental. Por outro lado, o manejo sustentável da Caatinga possibilita a realização das atividades para uma pecuária extensiva integrada com as atividades de apicultura e coleta de produtos não madeireiros, evitando os processo de desertificação por sobre – pastoreio.