Reflorestamento sob a ótica do real
Francisco Bertolani- Engº. Florestal

Basicamente, os primeiros reflorestamentos no Brasil foram realizados por empresas madeireiras, após ou durante a exploração de matas nativas, assim como por entidades governamentais. No Estado de São Paulo, caso atípico foi o desenvolvimento das ferrovias movidas a vapor e, em Minas Gerais, as fabricantes de aço ou redutoras de ferro a base de carvão vegetal. Sempre as madeireiras e o governo suportaram o reflorestamento, as primeiras por necessitarem de matéria-prima e, o segundo, por se tratar, na época, de cultura de longo prazo de retorno.

Numa segunda fase, a iniciativa privada, até então alheia ao setor, foi motivada pelos incentivos fiscais a partir de 1966.

Passadas essas fases, um diagnóstico mais profundo tem que ser feito.

1) O sistema fundiário no Brasil é complexo e variado. Em função dos valores das terras e do sistema fundiário - muitas pequenas e médias propriedades rurais no sul e sudeste, muitas grandes e médias propriedades no Centro-Oeste e, por fim, muitas pequenas, médias e grandes propriedades no Nordeste brasileiro, fazem do nosso país um desencontro de idéias.

2) A indústria não precisa, necessariamente, ter que sustentar sempre uma área florestal própria, já que esta é uma área de suporte. Manter uma área florestal é decisão estratégica. Fomentar a formação de florestas também é uma decisão estratégica.

3) Floresta é uma cultura perene e não precisa ser verticalizada; isto vale, da mesma forma, para as demais culturas agrícolas. Além de tudo é uma commodity.

4) Uma floresta bem localizada e bem conduzida pode ser tão rentável quanto uma indústria.

5) Agregar valor a determinados produtos florestais, sem conhecimento básico do empreendedor pode ser uma decisão desastrosa.

6) Terra, capital e indústria têm que ser remunerados de forma compatível: terra se valoriza; capital é estático e tem valor de oportunidade e indústria (instalações) se deprecia. Se cada um for segmentado, fica clara a rentabilidade a ser apropriada em cada segmento.

7) Portanto, terra pode ser arrendada / alugada e remunerada segundo a sua vocação e em comparação à concorrência de outros segmentos.

8) Capital, pode ser utilizado de diferentes fontes (Bancos, Fundos de Pensão, proprietários rurais, empresas com saldo de caixa, etc) e tem sua remuneração de mercado a médio e/ou longo prazo.

9) Indústria aloca seu capital em produção, automação, modernização, etc...

10) Ou seja, cada qual no seu ramo e na sua opção ou vocação. Isso legitima o investimento, além de regular o mercado com remuneração justa através da oferta e procura, assim como orienta a aplicação certa e o retorno adequado.

11) Há uma tendência mundial das indústrias madeireiras se desfazerem de seus ativos florestais, concentrando esforços técnicos e tecnológicos no seu "core business" deixando para os experts a formação de florestas.

12) Existe, inclusive, a segmentação do setor florestal em: a) Reflorestar, b) Pesquisar e Desenvolver e c) Colher.

13) Há casos em que atividades secundárias se interpõem na formação de florestas, proporcionando renda significativa. Tais atividades, muitas vezes, não interessam ao industrial, mas a sua participação é expressiva para os proprietários e para os aplicadores.

14) Exemplos do que estamos falando são a Recreação e o Lazer (Hotéis Fazenda, Caça, Pesca, Camping, Trilhas, etc).

15) Algumas empresas norte-americanas, inclusive, terceirizaram, por exemplo, os seus pomares de sementes.

Creio que devemos refletir sobre esses novos tempos. Analisando esses aspectos, não deve haver preocupação quanto a se estar subsidiando este ou aquele setor industrial ou de se estar auxiliando setores integrados.

Isenção de taxas de Impostos Territoriais Rurais, redução de taxas de Imposto de Renda para Fundos que aplicarem em reflorestamentos e incentivos reduzindo ICMS e/ou IPI de empresas que atuarem no mercado livre madeireiro, seriam suficientes para alavancar o setor florestal como um todo.

Há, nos Estados Unidos, uma participação de Fundos de Pensão em reflorestamento com isenção de IR. A maioria dos Fundos tem, em suas carteiras, aplicações em reflorestamentos.

Não adianta querer vender terras para os Fundos Investidores; não é isso que os atrai..., eles querem estar livres para negociar suas ações no mercado, da mesma forma que nenhum proprietário de floresta quer comprar indústria e vice-versa.

Se não conseguimos alavancar nosso reflorestamento, se estamos abaixo de qualquer taxa de reflorestamento comparada com países de vocação florestal, creio que não é falta de vontade ou refração ao setor. Eu creio que a ótica do reflorestamento está equivocada para a época atual. Ela foi sucesso no passado, porém, isso não garantiu a sua continuidade. Em geral, as áreas florestais saíram das mãos de pequenos produtores e do governo, e foram para grandes indústrias. É hora de inverter o processo. A indústria agradecerá por não ter que investir em mais áreas. O fazendeiro agradecerá por ter mais uma oportunidade de negócios e o investidor estará aplicando em florestas e em suas produções e não em terras ou em complexos sistemas industriais de difícil visualização contábil e controle.

Na pior das hipóteses, chegaremos na hora da verdade: quem é quem!

Francisco Bertolani
Engº. Florestal