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Sustentabilidade
Ecológica e Econômica da Cultura do Eucalipto
Paulo de T. Alvim e J. Geraldo Mageste
Desejo
expressar meus sinceros agradecimentos e ao mesmo tempo apresentar
minhas felicitações aos organizadores deste oportuno
evento, pelo honroso convite para vos falar sobre um tema atualmente
muito discutido em nosso país, qual seja a questão
da sustentabilidade ecológica e econômica da cultura
do eucalipto. Reuniões como a presente são indubitavelmente
de grande importância para nossa sociedade. Minha palavra
será aquela de um técnico que ainda antes da metade
do século passado teve seu interesse despertado por problemas
relacionados ao meio ambiente, terminando por abraçar esta
causa para o resto de minha existência. Tal fato me faz suspeitar
que o lisonjeiro convite para vos falar sobre tema tão abrangente,
talvez deva ser interpretado como um tributo à minha idade
mais do que uma prova de reconhecimento à minha competência
sobre o assunto. Em vista de tal suspeita, tomei a iniciativa de
convidar um de meus colegas de trabalho, o Dr. J. Geraldo Mageste,
a ser parte desta autoria, tendo em vista sua reconhecida experiência
sobre temas ligados ao cultivo de eucalipto em nosso País.
Oxalá tenhamos condições de expor nossas idéias
de forma clara e objetiva, na expectativa de subsanar possíveis
dúvidas quanto aos problemas de natureza não apenas
ecológica, mas sobretudo também sob o ponto de vista
econômico para as regiões produtoras.
CONSERVAR
O QUÊ E PORQUÊ
Cumpre-me
dizer, logo de início, que não considero a conservação
dos recursos do ambiente como algo que se deva levar a sério
apenas porque amamos a natureza ou desejamos proteger plantas e
animais que se acham ameçadas de extinção.
Esses argumentos são os mais enfatizados e difundidos nas
campanhas populares em defesa do meio ambiente. É preciso
chamar a atenção para um argumento muito mais importante
e que necessita de maior divulgação, ainda que há
muito tempo vem sendo dito: necessitamos de proteger a nós
mesmos ou, em outras palavras, salvar nossa própria pele.
Muitos conservacionistas se mostram preocupados com o futuro de
passarinhos e flores, mas parecem ignorar que uma espécie
domesticada do reino animal está também seriamente
ameçada: o Homo sapiens.
Julgo
oportuno assinalar que a palavra conservação não
significa apenas a adoção de medidas capazes de proteger
o meio ambiente com suas plantas e animais silvestres. Prefiro o
conceito mais abrangente oficialmente adotado pela União
Internacional para a Conservação da Natureza, o qual
define a palavra conservação como o manejo dos
recursos do ambiente com o propósito de se alcançar
o mais alto padrão de vida sustentável para o ser
humano. Essa definição implica que nenhum movimento
em defesa da natureza teria qualquer sentido se sua meta principal
não fosse a de ajudar a própria vida humana. Estaríamos
correndo o risco de sermos tachados de imaturos ou mesmo cínicos
se não admitíssemos que a proteção da
vida humana é mais importante que a proteção
de plantas ou animais silvestres. Somente uma pessoa mentalmente
desequilibrada poderia dizer que as plantas e os animais são
mais importantes ou úteis e que se acham mais necessitados
de cuidado e amor que milhões de pessoas - especialmente
aquelas do chamado terceiro mundo - que estão morrendo antes
do seu tempo em conseqüência da miséria e da fome.
MOVIMENTOS
CONSERVACIONISTAS
Pode-se
dizer que o movimento conservacionista nasceu no ano de 1872 quando
foi criada nos Estados Unidos a primeira área de preservação
permanente, o famoso PARQUE NACIONAL DE YELLOWSTONE. A beleza natural
deste parque muito contribuiu, sem dúvida, para que a humanidade
tomasse consciência da importância de se preservar a
natureza por seus valores estéticos, éticos, históricos,
culturais, regionais, científicos e, sobretudo, econômicos.
Foi assim que nasceu a idéia dos parques, das reservas biológicas,
das florestas nacionais, dos monumentos naturais, dos santuários,
dos refúgios, etc. A criação, em 1948, da União
Internacional para Conservação da Natureza e Recursos
Naturais, com sede na Suíça, muito contribuiu para
que a humanidade passasse a reconhecer que os recursos da natureza
- tais como o solo, a água, as florestas, a fauna, as áreas
naturais intactas e a própria beleza natural - são
todos de vital importância não só para as gerações
presentes mas, sobretudo, para as futuras.
O Brasil
também aderiu aos movimentos conservacionistas, porém
com muita lentidão e menos eficiência do que o observado
nos países mais ricos. De qualquer forma, criamos nossas
leis de proteção ambiental. Todos nós sabemos
que nosso Código Florestal é considerado por muitos
como um dos mais avançados do mundo, pelo menos no papel.
Também temos nossa lei de proteção à
fauna, não tão elogiada como o Código Florestal.
Desde muito tempo, nosso maior problema foi e ainda continua sendo
a fragilidade de nossos órgãos encarregados de fazer
cumprir nossa legislação ambientalista.
Formações
de Povoamentos homogêneos.
De vez em quando, a exemplo do que também acontece no exterior,
aparecem movimentos brasileiros questionando formações
de povoamentos homogêneos. Mas, estranhamente, atiram apenas
em direção dos plantios de eucalipto e pinus. Para
um país como o nosso, onde já existem vários
cursos em nível de Doutorado em Ciências Florestais
ou até mesmo tanto desenvolvimento em Ciências Ambientais,
tais colocações não são mais cabíveis
É preciso não assumir posições radicalmente
contrárias à formação de povoamentos
homogêneos de eucalipto e pinus, erroneamente chamados de
florestas. Florestas são formações
arbóreas com diversidade de espécies e não
somente o cultivo de uma única. A mata atlântica sul
baiana, com suas quase quatrocentas diferentes espécies por
hectare mereceu até o título de Campeã Mundial
de Biodiiversidade, dado pelo New York Botanic Garden. Plantações
homogêneas de eucaliptos, pinus ou cafezais, são apenas
cultivos ou povoamentos.
Obviamente,
não se pode pensar e nem estamos pensando em transformar
todas as nossas áreas florestais em campos cultivados. Por
outro lado, não se pode aceitar a alegação
de que os reflorestamentos homogêneos com eucaliptos e pinheirais
podem mudar o clima ou secar o solo de uma determinada região.
Evidentemente, qualquer forma de agricultura, pecuária ou
silvicultura, inevitalmente acarreta mudanças nos hábitos
da fauna e flora do local trabalhado. Para a defesa da fauna e da
flora regionais é indispensável a criação
de reservas biológicas, corredores ecológicos, parques
ou santuários bem protegidos.
Enfim,
há medidas específicas, que precisam ser ampliadas
em nosso país, com o objetivo de proteger nossos recursos
genéticos, sem prejudicar o processo de desenvolvimento econômico,
baseado na agricultura comercial, indispensável para todos
nós.
Concretamente
queremos deixar nosso apelo para que rapidamente haja solução
de um problema que enfrentamos - boa legislação ambiental,
porém acompanhada de fraca execução das leis.
Parece não haver outro caminho para o aperfeiçoamento
dos nossos serviços de proteção ambiental.
Mas, abaixo o sensacionalismo sem fundamento. Temos que assumir
a importância de atender as necessidades de nossas gerações
presentes e futuras.
DESENVOLVIMENTO
FLORESTAL SUSTENTÁVEL.
Usamos aqui o termo florestal para referir tanto a povoamentos
homogêneos quanto à produção madeireira
de florestas naturais. Os números do setor são impressionantes:
PIB florestal de 21 bilhões de dólares e exportações
por volta de U$ quatro bilhões. Segundo informações
proporcionadas pela Sociedade Brasileira de Silvicultura, são
recolhidos impostos acima de U$ três bilhões e gerados
mais de 115 mil empregos diretos. Considerando o nível de
terceirização que temos experimentado nos mais diversos
setores, é bem provável que tenhamos mais de 300 mil
empregos indiretos. Se somos o sétimo produtor mundial de
celulose e o oitavo consumidor, significa que temos ainda muito
para crescer. Estamos atrás do Chile, África do Sul,
México, Argentina, Austrália, Holanda, Canadá
e EUA em consumo per capta de papel, o qual, em nosso país
não passa de 38,4 kg por pessoa, contra 336,5 kg do consumidor
americano. Como todos sabemos, quanto mais desenvolvida uma nação,
maior o seu consumo de papel. Temos mais de 4 milhões de
hectares plantados com eucalipto, dos quais, apenas 400 mil no Espírito
Santo. A produção de madeira em toras no Brasil já
passou de 200 milhões de m3. Esses dados vêm nos relembrar
do quanto nós podemos ainda crescer e da nossa responsabilidade
de fazer tudo isto continuar de maneira sustentável.
Após
o processo de consolidação da democracia na América
Latina, temos sido fomentados, cada vez mais, a termos uma sociedade
com mecanismos que assegurem a paz e o desenvolvimento humano sustentável.
Uma das alternativas mais acessíveis para o desenvolvimento
sustentável de nossas populações é o
recurso florestal. Mas não nos esqueçamos que é
necessário integrar a atividade florestal com a economia
dos setores rurais, repercutindo numa melhora das condições
de vida da população. Para que isto aconteça,
precisamos de um grande projeto de desenvolvimento nacional, e não
apenas de atuações locais, a nível de um Estado,
por exemplo. Neste projeto temos que contar com apoio técnico,
financeiro e logístico para as comunidades. Obviamente, necessitamos
de maior agilidade e eficiência de instituições
responsáveis por administrar nossos recursos florestais.
Os
profissionais florestais devem somar esforços para colocar
em prática as mais novas técnicas e práticas
do nosso tempo. Estamos assistindo com prazer o desenvolvimento
tecnológico para o uso da madeira de eucalipto serrado. Observa-se,
entretanto, que nosso País nem aparece nas estatísticas
mundiais de produtor de móveis. Ainda existe um segmento
inteiro para ser implantado. Temos, portanto, muito o que discutir
em conferências como esta para oferecermos à sociedade
soluções mais animadoras de desenvolvimento florestal.
ESPECIFICAMENTE
SOBRE O EUCALIPTO
Em 1985 a FAO (Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e Agricultura) publicou
um livreto sobre os Efeitos Ecológicos do Eucalipto
(Estudos de Silvicultura No. 59) com o objetivo de contribuir para
a elucidação das disputas sobre esta questão.
Este trabalho analisa de maneira imparcial e objetiva os indícios
científicos disponíveis até aquela ocasião.
No entanto, existiram evidências de que o conteúdo
deste trabalho utilizava linguagem excessivamente técnica,
embora o assunto fosse de especial interesse também aos não-especialistas.
Assim, em 1989 este organismo voltou a publicar outro importante
documentário, intitulado O Dilema Eucalipto,
um exemplar do qual consideramos oportuno enviar aos organizadores
deste importante Seminário. Tal trabalho, escrito de forma
clara e objetiva, mostra várias faces sobre a questão.
Descreve alguns prós e contras às plantações
de eucaliptos, mas trás valiosos documentários sobre
temas como o eucalipto e os recursos hídricos,
o eucalipto e as substâncias nutritivas, o eucalipto
e as outras plantas e por fim aponta, com propriedade, os
caminhos adequados para a interação eucalipto e população.
Devemos
enfatizar a capacidade do eucalipto em crescer nos mais diversos
ambientes e de sua alta capacidade de produzir fibras para a indústria
de polpa e papel em prazos reduzidos, sem esquecer da sua habilidade
de produzir óleos e taninos. Logicamente, uma determinada
plantação, seja de que espécie for, somente
poderá ter sucesso se for adequada às condições
locais de clima e solo e se puder efetivamente propiciar os benefícios
racionais do uso da terra.
Quanto
às relações hídricas do eucalipto, os
autores do citado livro enfatizam que o consumo de água será
proporcional à quantidade de biomassa a ser produzida, assim,
o eucalipto utiliza menos que os pinheiros, mas ganha dos arbustos
e das pastagens. Esta questão será provavelmente discutida
por outros participantes deste oportuno seminário
Ainda
com referência à hidrologia ou supostos impactos das
plantações de eucaliptos sobre as relações
solo/água/planta, julgo oportuno transcrever algumas as seguintes
observações extraídas de um modesto trabalho
de minha autoria publicado há alguns anos atrás:
Muitos
parecem pensar que o eucalipto funciona como uma verdadeira bomba
de sucção, consumindo muito mais água do que
as florestas nativas. Alguma diferença em consumo de água
efetivamente existe entre as várias essências florestais,
e isto se deve principalmente a diferenças quanto às
suas respectivas velocidades de crescimento. As espécies
de crescimento muito rápido, entre as quais se destaca o
eucalipto, certamente evaporam mais água do que as de crescimento
lento. Essas diferenças, entretanto, só se tornam
acentuadas durante os dois ou três primeiros anos após
o plantio. Isto se observa inclusive entre os cultivares de eucalipto.
Uma vez alcançada a fase adulta, quando as copas das árvores
pouco diferem quanto à densidade de folhagem ou índice
de área foliar¨, quase não se observa diferenças
nas taxas de evaporação, ou consumo de água,
entre espécies ou cultivares e nem mesmo entre florestas
plantadas e nativas. O que controla o consumo de água de
qualquer tipo de formação florestal fechada, isto
é, que cobre completamente o terreno, são as condições
climáticas e edáficas da localidade, destacando-se
principalmente a intensidade e duração da radiação
solar, temperatura, umidade relativa,turbulência do ar e a
disponibilidade de água no solo. Em síntese: não
há nenhum indício de alterações drasticamente
impactantes quando uma formação florestal nativa
é substituída por outra plantada, seja esta última
homogênea ou não. O regime hídrico de uma localidade
revestida de floresta só se altera drasticamente - especialmente
em termos de taxa de escoamento superficial, erosão, volume
dos cursos dágua e freqüência das enchentes
- quando as florestas são substituídas por pastagens,
cultivos de ciclo curto ou qualquer tipo de vegetação
de pequeno porte (Alvim, 1994).
Para
finalizar, farei breve referência a dois trabalhos relacionados
a esse tema: um deles foi realizado nas próximidades de Teixeira
de Freitas, na Bahia, por volta de 1995, onde foram caracterizados
os deflúvios de três bacias hidrográficas com
diferentes predominâncias de cobertura: uma com eucalipto,
outra com pastagem e uma terceira com mata natural (fragmentos de
mata atlântica). As conclusões deste trabalho de Tese
do Professor Emídio C. Campos (hoje professor da UFMT) foram
que os deflúvios da bacia hidrográfica com predominância
de eucalipto assemelhavam-se em muito com os da mata natural, enquanto
na cobertura com pastagens havia perdas de argila e muitos nutrientes,
principalmente os monovalentes como o potássio. Ficou ainda
demonstrada a perda de ácidos orgânicos em muito maior
quantidade na cobertura de pastagem quando comparado com as bacias
cobertas com eucalipto e mata natural. Esse trabalho vem comprovar,
principalmente, a eficiência dos povoamentos de eucalipto
em facilitar a infiltração da água no solo,
reduzindo o seu escorrimento superficial.
Outro
interessante trabalho foi recentemente publicado na Revista Brasileira
de Silvicultura, em março do corrente ano, pelo Professor
Milor Sabará, da Universidade do Leste de Minas (UNILESTE).
Suas pesquisas realizadas na região do Vale do Rio Doce,
onde ha quase 60 anos se cultiva eucalipto, demonstraram evidentes
efeitos benéficos desta cultura no crescimento populacional
de peixes e desenvolvimento de planctons nos cursos dágua
da citada região.
Quanto
à interação com a população local
é preciso conciliar os benefícios florestais com as
necessidades desta população. Obviamente seria insensato
cultivar eucalipto em regiões que não oferecem satisfatórias
condições ecológicas para essa cultura. Por
outro lado, precisamos ter sempre em mente que vivemos em um país
capitalista e que, enquanto for ecológica e economicamente
viável, as plantações de eucalipto continuarão
desempenhando um papel de grande importância para os objetivos
da chamada silvicultura social, quais sejam:
1 -
Incentivar os agricultores a cultivar árvores que tenham
diversas utilidades. Além do que, cultivando-se eucalipto,
certamente muitas outras espécies deixarão de ser
usadas pelos agricultores. É preciso ter em mente que grande
parte de nossa população - mais precisamente, cerca
de 22 milhões de brasileiros - utilizam toda a energia que
necessitam da madeira;
2 -
Ajudar a criar outras fontes de produtos florestais nas zonas rurais,
como carvão, postes, lenha, madeira serrada, óleos
e essências florestais;
3 -
Proteger as terras sem vegetação, em benefício
principalmente da população, dos cultivos e animais;
4 -
Preservar o solo e a água, contribuindo inclusive para o
lazer.
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Paulo de T. Alvim: Eng. Agrônomo, PhD. Membro Titular da Academia
Brasileira de Ciências, Presidente da Fundação
Pau Brasil ,
Horto Zoobotânico da CEPLAC ou Cx. P 07 - 45600.000, IItabuna
- Bahia. Email: funpab@ceplac.gov.br
J. Geraldo Mageste: Eng. Florestal, Doctor Scientiae, Professor
da Universidade Estadual de Sta. Cruz , 45650.000, Ilhéus-
Bahia;
M embro do Conselho Científico da Fundação
Pau- Brasil
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